António Mora: INTR[ODUÇÃO] AO ESTUDO DA METAF[ÍSIC]A

António Mora, o heterónimo filósofo de Fernando Pessoa, escreve uma Introdução ao Estudo da Metafísica.

Princípios basilares

1. Há só duas realidades: a Consciência e a Matéria.

2. A Consciência é para nós incognoscível; só podemos saber que ela é consciência. Mas não é só isto. Não pode ser conhecida, não há que haver conhecimento dela. Aquilo a que se chama «conhecimento» é uma coisa que só se pode ter do mundo exterior. Conhecer uma coisa é apreendê‑la sob quantos aspectos ela comporta sob os nossos sentidos. Não podeportanto haver conhecimento da Consciência; porque, mesmo que conhecimento signifique propriamente consciência, não há consciência da consciência, por muito que pareça que a há. A consciência é.

3. O mundo‑exterior é real como nos é dado. As diferenças que há entre a minha visão do mundo e a dos outros é uma diferença de sistemas nervosos. Os sistemas nervosos são partes dessa realidade exterior. (…) A ciência estuda — não as leis fundamentais do mundo‑exterior, ou Realidade, porque não há leis fundamentais do mundo‑exterior: ela é a sua própria lei — mas as normas segundo as quais os fenómenos se manifestam, isto, não com o fim de saber, mas com o fim de utilizar para nosso conforto e proveito os «conhecimentos» adquiridos.

4. Toda a filosofia labora num p[rimeir]o erro que consiste fundamentalmente em atribuir à Matéria qualidades que nos vêm de analisar ou «ter consciência» do nosso espírito, e num segundo erro maior que consiste em atribuir ao (nosso) espírito, à Consciência em geral, qualidades que provêm de termos cada um um psiquismo; o que afinal depende de termos, cada um, um corpo. A filosofia é um antropomorfismo em todos os sistemas; atribuímos à Natureza as qualidades que nós temos — ter um todo, como nós; etc. E a espontânea atitude poética de atribuir sentimentos aos rios, às pedras, etc., provém precisamente do mesmo antropomorfismo fundamental do nosso espírito.

5. Quanto mais a evolução se complica mais complexo e nítido vai sendo o nosso senso da Realidade. Ela é cada vez mais real, mais material. Se a «espiritualidade» importa um apagamento do senso das coisas, nada há tão espiritual como uma amiba, e um pargo ou uma pescada têm vantagens espirituais sobre o homem. O espiritualismo, o idealismo são estados regressivos da mentalidade humana; como que saudades de épocas pré‑humanas do cérebro em que o Exterior era menos complexo. A tendência espiritualista ou idealista é uma incapacidade de arcar de frente com a complexidade da Natureza.Querer simplificar a Natureza é querer ter dela um sentido de peixe ou de invertebrado mesmo.

6. Querer encontrar às coisas um íntimo sentido, uma «explicação» qualquer é, no fundo, querer simplificá‑las, quererpô‑las num nível em que caiam sob um sentido só — o que aconteceu em épocas idas a bichos nossos antepassados pouco abundantes de sentidos.

7. A função própria da inteligência é servir a vida. O emprego da inteligência, em filosofar, só pode ter, pois, legitimamente, um qualquer sentido utilitário. (Querer descobrir a verdade pode ter um fim utilitário no conceito religioso de querer saber qual deve ser a nossa conduta, para obter o paraíso, por ex.). A Ciência deve servir a vida. A arte tem por fim repousar o espírito. É o sono das civilizações. A filosofia entra na categoria da arte. — A filosofia foi primeiro uma «ciência»: tinha por fim descobrir a verdade para o fim utilitário de nos governarmos na vida; porque, se se julga que há uma vida futura, com castigos e recompensas, não é por certo pouco importante saber‑se o que se deve fazer para evitar uns e merecer outros. Hoje a filosofia deve passar a ser uma arte — a arte de construir sistemas do Universo, sem outro fim que o de entreter e distrair, publicando belos sistemas.

8. Todos os sistemas filosóficos devem ser estudados como obras de arte. (Nenhuma arte é feita com o fim de entreter, mas é para isso que ela serve. O artista toma o seu papel mais a sério (…)

9. A Vida não tem sentido nenhum.

10. A Beleza não existe. É um modo de repouso do espírito. O espírito, à medida que aumenta a sua actividade, busca novos modos de repouso. A arte é o mais elevado deles.

11. A maioria das manifestações, a que é uso chamar superiores, do nosso espírito, são realmente regressos doentios a estados de consciência anteriores à humanidade. Já se mostrou que o sono dos faquires é uma regressão ao sono hibernal de certos animais. — O domínio do corpo, que os ditos «iniciados» índios e outros pregam, mais não é do que um desvio da inibição. Ex.: O normal seria dominar o corpo pelo corpo — como na grande criação científica do sistema ginástico de Lings.

12. Todas as manifestações do espírito humano passam por três períodos — no primeiro, elas, rudimentares então, são um modo de procurar repouso e variedade; no segundo, são um modo de procurar repouso ainda, mas buscando‑o não já pelo sossego dos sentidos, senão que pelo sossego dos sentimentos; no terceiro período, procura‑se ainda obter repouso, mas então o processo é procurar sossegar a inteligência. O espírito humano evolui do simples para o complexo, e é preciso notar que o clássico é que é o complexo e o romântico é que é o simples. — Na arte, exemplificando: o primitivo, que vive só de sentidos, ou predominantemente dos sentidos, busca com a sua arte rudimentar, repousar da vida entretendo os sentidos com cores vivas, ruídos violentos, movimentos excitantes; o homem que avançou mais um passo, e é já civilizado, procura, porque criou sentimentos definidos, sossegar esses sentimentos, entretê‑los, e entretê‑los é dar expressão ao seu conteúdo; o homem chegado ao limite do seu desenvolvimento criou já um estado definido de inteligência, e esse procura sossegar a sua inteligência não já dando expressão a sentimentos ou satisfazendo as rudimentares exigências dos sentidos, mas (…) No terceiro período atingiu‑se a plena abstracção, isto é, o poder pleno de medir uma coisa intelectualmente (…).

Com os gregos nasceu a ciência propriamente dita, o espírito científico, a mentalidade superior. Antes disso bastava, ao fazer filosofia, criar um sistema que não se contradissesse a si próprio; depois passou a ser preciso criar um sistema que não contradissesse os factos. Os factos nasceram na Grécia.

Só na Grécia é que a filosofia começou pròpriamente a separar‑se da religião; a não buscar, portanto, satisfazer os nossos sentimentos, mas a noção das coisas.

1915?

Textos Filosóficos. Vol. I. Fernando Pessoa. (Estabelecidos e prefaciados por António de Pina Coelho.) Lisboa: Ática, 1968 (imp. 1993).

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David Teles Pereira

A TUA CASA

A tua casa solta um suspiro de ouro.

Eu espero, num lugar entre a porta e o meu medo,

Que à janela venhas sacudir o teu amor.

Aqui na rua as vizinhas olham-nos das suas varandas,

Recolhem os filhos para dentro das saias,

Escondem-se a sussurrar a minha desgraça.

À minha janela espreita melancólica uma casa.

Eu sempre esperei, sem ver outro dia,

Que espreitasses enquanto me crescem as asas.

Publicado em Escritores Século XX, Poetas Contemporâneos, Poetas do Século XX

Exame Geometria Descritiva A (708) 2014 2ª Fase (enunciado, proposta de resolução e critérios de correção)

 

 

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Critérios de correção

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Exame Geometria Descritiva 2014 1ª Fase (enunciado, proposta de resolução e critérios de correção)

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Critérios de correção

 

 

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Geometria Descritiva A – Informação exame final nacional

Duração da prova 708 – GEOMETRIA DESCRITIVA A

150 minutos + 30 minutos (tolerância)

Caracterização da prova:
item 1
Em dupla projeção ortogonal, determinação de projeções de entidades
geométricas elementares, condicionadas por relações de pertença (incidência),
de paralelismo, de perpendicularidade, ou resultantes de intersecções.

item 2
Em dupla projeção ortogonal, resolução de um problema métrico envolvendo
a relação de entidades geométricas elementares ou a construção de figuras
planas.

item 3
Em dupla projeção ortogonal, representação de um sólido geométrico, ou
determinação de uma secção ou de sombras de um sólido geométrico.

item 4
Em axonometria clinogonal ou ortogonal, representação de uma forma
tridimensional, composta por sólidos geométricos — pirâmides, prismas, cones,
cilindros.

Material permitido:

A prova é realizada em folhas de papel de 120g/m2, formato A3 + (48 cm × 32 cm), fornecidas pelo estabelecimento de ensino (modelo oficial). no cabeçalho das folhas de resposta, está identificada a disciplina — Geometria Descritiva A — e o respetivo código — 708.

No preenchimento do cabeçalho, o examinando apenas pode usar, como material de escrita, caneta ou esferográfica de tinta indelével, azul ou preta.

O examinando deve utilizar quatro folhas de resposta e resolver um item por folha, na face que apresenta o cabeçalho impresso.

O examinando deve ser portador do seguinte material:
— lápis de grafite ou lapiseira;
— borracha;
— compasso;
— régua graduada de 50 cm;
— esquadros (sendo um de 45º);
— transferidor;
— outro material equivalente ao acima referido, habitualmente utilizado.
não é permitido o uso de corretor.

PDF – informações exame final nacional de Geometria Descritiva A

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Gato que brincas na rua – análise do poema

À semelhança do que faz em “Autopsicografia”, Pessoa parte de uma imagem, de uma cena do quotidiano, neste caso um gato a brincar na rua. Além disso, o poema recorda-nos “Tabacaria”, nomeadamente o momento em que a sua atenção se centra na rapariga que come chocolates, absorta do resto do mundo. Ora, sucede que é esta ausência de preocupação que o espanta, intriga e lhe desperta a «inveja» que espelha no poema em análise.

O tema do poema é, mais uma vez, a dor de pensar, motivada pela intelectualização do sentir, do qual decorrem outras temáticas caras ao poeta: a felicidade de não pensar; o isolamento do «eu» face às «pedras e gentes»; a inveja sentida pelo sujeito poético relativamente à inconsciência do animal; o desconhecimento, a sensação de estranheza do «eu» em relação a si.

O poema abre com a apresentação da referida situação de um gato que o sujeito poético observa a brincar na rua como se fosse na cama (comparação). Esta circunstância coloca-nos desde logo na presença de um animal feliz (porque está a brincar) e ao mesmo tempo tranquilo, despreocupado, indiferente e inconsciente do perigo (novamente a comparação «como se brincasse na cama») por ser irracional, não pensar. Por outro lado, sugere-se que o gato age no exterior e no contacto com os outros («na rua» – v. 1) com a mesma naturalidade com que brinca na cama, na sua «intimidade». Assim, o sujeito poético sugere que o gato não age segundo quaisquer convenções, antes vive apenas de acordo com a sua vontade e os seus instintos próprios de animal irracional. Além disso, tem «sorte», a sorte de ser inconsciente dos perigos, de ser irracional e não pensar, por isso cumpre o seu destino sem se lhe opor minimamente, não o questionando (v. 5), cumprindo assim, no fundo, a ambição de Ricardo Reis, que é a de sentir o destino como algo inevitável. Como não pensa, é o «nada», mas é-o plenamente e é feliz, porque não se conhece, regendo-se pelos seus «instintos gerais». «Todo o nada» que o gato é, porque não pensa no que é, pertence-lhe, já que depende exclusivamente dos seus sentidos. Ao contrário do que sucede com o sujeito poético, no gato predomina o sentir sobre o pensar: o animal não tem consciência do que sente, limita-se a sentir (v. 8). Em suma, é feliz«porque [é] assim», isto é, irracional, inconsciente, porque age por instintos. O gato aceita calmamente o destino (v. 5), age apenas por instintos gerais (v. 7), isto é, comandado apenas pelos sentidos (v. 8), assim conseguindo ser feliz (v. 9).

Por seu lado e perante este quadro, o sujeito poético não esconde a sua admiração e inveja relativamente à sorte do gato, ou seja, de ser inconsciente e poder brincar sem pensar em (mais) nada, o que é equivalente a dizer que inveja o gato pela felicidade simples resultante da vivência plena das coisas sem pensar. O sujeito poético inveja a sorte do gato que, na realidade, nem «sorte se chama», isto é, não se trata de sorte, dado que são as leis da natureza que permitem ao felino ser um ser inconsciente feliz.Pelo contrário, ele tem a consciência plena de que é infeliz, ideia que é acentuada pela observação do gato e do seu comportamento, pois pensa-se, ao contrário do animal, daí que revela também tristeza e desolação por não conseguir abolir o pensamento e, dessa forma, ser igualmente feliz. De facto, ele é um ser dominado pela racionalização, em busca constante de autoconhecimento, tudo racionaliza, transforma as sensações em pensamentos, daí a sensação de estranheza face a si mesmo.

Podemos, em suma, afirmar que o sujeito poético inveja o gato por três razões:
1.ª) Tem “instintos gerais” e sente só o que sente, ou seja, não pensa sobre o que está a sentir, limita-se a sentir;
2.ª) É “um bom servo das leis fatais”, isto é, não tenta contrariar as etapas inevitáveis da existência: nascimento, crescimento e morte;
3.ª) “Todo o nada que és é teu”, ou seja, ao contrário do sujeito poético, o gato não pensa, não se questiona .
Assim, esta dor de pensar que o tortura leva-o a desejar ser inconsciente como a ceifeira e como o gato, que não pensam.
A nível formal, o poema é constituído por três quadras, num total de 12 versos de redondilha maior (versos de 7 sílabas métricas). A rima é cruzada, segundo o esquema ABAB.
Morfologicamente, predominam o nome e o verbo no presente do indicativo (traduzindo a factualidade da situação apresentada), escasseando os adjetivos («fatais», «gerais», «feliz»).
Estilisticamente, a comparação dos versos 1 e 2 («Gato que brincas na rua / Como se fosse na cama») traduz a despreocupação do gato por se tratar de um animal irracional. A metáfora «Bom servo das leis fatais» remete para a inconsciência do gato e a aceitação calma do destino. As antíteses são diversas e giram todas em torno da oposição gato (guiado pelos instintos, livre e feliz) / sujeito poético (angustiado, infeliz e torturado pela dor de pensar, porque guiado pelo pensamento): consciência / inconsciência, pensar / sentir; prisão / liberdade, angústia / alegria, felicidade / infelicidade. Todas elas apontam para as diferenças entre o sujeito poético e o gato. O paradoxo que finaliza o poema («Eu vejo-me e estou sem mim, / Conheço-me e não sou eu.» – vv. 11-12) sugere a procura do autoconhecimento, a racionalização e a estranheza face a si mesmo.
O vocabulário é simples e com valor denotativo. Por último, nota para as orações subordinadas causais:
ü «Porque nem sorte se chama» (v. 4): a justificação da inveja da sorte do gato, pelo facto de este desconhecer o significado de sorte;
ü «Que tens instintos gerais» (v. 7): apresenta a razão de o gato ser um cumpridor do destino;
ü «És feliz porque és assim» (v. 9): traduz a razão da felicidade do gato (sentir).

Publicado em Ensino Secundário - 12º ano, Escritores Século XX, Fernnado Pessoa, Poesia e Prosa Pessoana | Etiquetas , | Publicar um comentário

AVENTURAS DE UM CRÂNEO E OUTROS TEXTOS

Mário Botas

“Cada criatura tem um centro – luz variável rodeada por sombras também variáveis: apercebemos a luz e a escuridão mas não o limiar da transição entre elas.”

– Mário Botas
in AVENTURAS DE UM CRÂNEO E OUTROS TEXTOS, Lisboa: Averno, 2013

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