Memorial do Convento – Título e Classificação do Romance

Título

O título do romance remete para duas dimensões:

Ø         dimensão temporal – o vocábulo “memorial” significa escrito em que se rela­tam factos memoráveis, o que implica necessariamente um movimento de recuo no tempo;

Ø         dimensão espacial – referência a um espaço concreto, um convento.

 

 

Classificação (tipo de romance)

Romance histórico, Memorial do Convento oferece-nos uma minuciosa descrição da sociedade portu­guesa do início do século XVIII, marcada pela sumptuosidade da corte, associada à Inquisição, e pela explora­ção dos operários, metaforicamente apreciados como se de tijolos se tratassem para a obra do convento de Mafra, A referência à guerra da Sucessão, em que Baltasar se vê amputado da mão esquerda, a imponência bárbara dos autos-de-fé, a que não falta a “alegria devota”, a construção do convento, os esponsais da prin­cesa Maria Bárbara, a construção da passarola voadora pelo Padre Bartolomeu de Gusmão e tantos outros acontecimentos confirmam a correspondência aproximada ao que nessa época ocorre e conferem à obra a designação de romance histórico,

Dentro da linha neo-realista, preocupado com a realidade social, em que sobressai o operariado oprimido, Memorial do Convento apresenta-se também como um romance social ao ser crónica de costumes de uma época, reinterpretada para servir os objectivos do autor empírico. E, nesta medida, pode afirmar-se como romance de intervenção que visa a história repressiva portuguesa da primeira metade do século XX.

Note-se que o passado se presentifica e sugere um presente actuante, quer pela intemporalidade de comportamentos, desejos ou anseios, quer pela denúncia de situações de opressão, repressão e censura no momento da escrita. Em Memorio/ do Convento há uma tentativa de encontrar um sentido para a história de uma época que permita compreender o tempo presente e recolher ensinamentos para o futuro.

Se optarmos por uma classificação de acordo com os elementos estruturais da narrativa – personagem, espaço e acontecimento – designaremos por romance de espaço ao representar uma época, interessando­-se por traduzir não apenas o ambiente histórico, mas também por apresentar vários quadros sociais que permitem um melhor conhecimento do ser humano. A riqueza do cenário, reconstruindo Lisboa e diversas povoações em seu redor, permite observar as preocupações com os factos históricos e as vivências do povo humilde; espreitar a intimidade e os deveres conjugais – “duas vezes por semana” – do rei D. João V, que necessita de herdeiros; assistir à construção de um convento em Mafra; recordar a passarola voadora do Padre Bartolomeu Lourenço; ou reviver as perseguições religiosas e políticas da Inquisição. Sempre que pode, uma voz narrativa insurge-se sarcasticamente contra os repressores:

“Devagar, a terra aproxima-se, Lisboa distingue-se melhor, o rectângulo torto do Terreiro do Paço, o labirinto das ruas e travessas, o friso das varandas onde o padre morava, e onde agora estão entrando os familiares do Santo Ofício para o prenderem, tarde piaram, gente tão escrupulosa dos interesses do céu e não se lembram de olhar para cima, é certo que, a tal altura, a máquina é um pontinho no azul”.

 

 Em conclusão poderemos dizer que estamos diante de uma obra muito complexa que com­bina vários géneros de discurso. Sendo fundamentalmente um romance histórico em que podemos distinguir longos trechos que se assemelham a uma crónica da História, é um romance de espaço pela primazia que concede à pintura do meio histórico e dos ambientes sociais nos quais decorre a intriga. Por outro lado contém em si, ligada por fios ténues à história principal, uma belíssima história de amor.

 

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