Contexto político da publicação da Mensagem

Salazar (1889-1970), chamado ao Poder, na qualidade de ministro das Finanças, em 1928, tornar-se-ia presidente do Conselho em 1932. Aprovados a Constituição e o Estatuto do Trabalho, em 1933, iniciava-se o Estado Novo.

O preço  a pagar pela ordem e pelo rigor administrativo foi elevado em termos de repressão e de restrição das liberdades fundamentais.

Para Robert Bréchon (1996:537) «Pessoa não é nem um salazarista fervoroso nem um anti-salazarista convicto. A sua adesão ao Estado Novo é racional e provisória», o que traduz bem a dificuldade que é situá-lo ideologicamente no contexto político em que viveu.

Na Mensagem onde o nacionalismo utópico de Pessoa é abertura ao mundo, o nacionalismo salazarista é fechamento sobre si próprio; onde a mitologia pessoana é sonho e programa de acção, a do Estado Novo é saudosismo fadista; onde na Mensagem o império material se desmorona na sua própria impossibilidade histórica, o império colonial salazarista é, contra a História e o devir, a sua última possibilidade de grandeza.

(Adaptado de «Contexto político da sua publicação» in Dicionário da Mensagem, Artur Veríssimo, Porto, Areal Editores, 2000, pp. 84-85.)

 

Há quem veja na última estrofe do poema «Liberdade» uma alusão crítica a Salazar, que foi ministro das finanças e, supostamente, lia muito.

Todavia, o facto de ser muito religioso e de ler assiduamente não o fez entender o sentido e o dever de não coarctar a liberdade.

 

LIBERDADE

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa…

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quando há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças…
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca.

1935

 

 

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