Ricardo Reis

 

Perfil biográfico

Ao dar conta da tendência para criar em seu torno, desde criança, um mundo fictício, Pessoa afirma: ” (…) Aí por 1912, salvo erro (…), veio-me à ideia escrever uns poemas de índole pagã. Esbocei umas coisas em verso irregular (…) e abandonei o caso. Esboçara-se-me contudo, numa penumbra mal urdida, um vago retrato da pessoa que estava a fazer aquilo. (Tinha nascido, sem que eu soubesse, o Ricardo Reis) “.

 

Contudo, é só depois de ter tido necessidade de arranjar uns discípulos para Caeiro que vai arrancar Ricardo Reis “do seu falso paganismo (…) porque nessa altura já o via”. Mais adiante diz: ” (…) Eu vejo diante de mim, no espaço incolor mas real do sonho, as caras, os gestos de Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Construí-lhes as idades e as vidas. Ricardo Reis nasceu em 1887 (…), no Porto, é médico e está presentemente no Brasil”. Acrescenta que foi educado num colégio de jesuítas e desde 1919 vivia no Brasil porque, por ser monárquico, se havia expatria­do, e é “latinista por educação alheia, e um sem-helenista por educação própria”. Fisicamente, Reis é mais baixo e mais forte que Caeiro e de tez morena.

 

Características temáticas e estilísticas

 

Com este heterónimo Pessoa projecta-se na antiguidade grega. E em termos de semelhança com o Mestre, estas são visíveis apenas na preferência pelo mundo exterior, muito embora este não seja por ele comen­tado e lhe sirva unicamente de contemplação. Mas Reis, tal como Caeiro, aconselha a aceitar a ordem das coisas e a gozar a vida pensando o menos possível, um pouco ao jeito das crianças (“Depois pensemos, crianças adultas, que a vida / Passa e não fica…”). As afinidades entre Caeiro e Reis restringem-se aos aspectos apontados, porque, na realidade, é notória a vivacidade e a ingenui­dade, o prazer e a alegria, a naturalidade e espontaneidade no Mestre, enquanto no discípulo tudo é calculado, ponderado, reflectido e bem perceptível num tom triste que transparece na sua poesia e que é, cer­tamente, resultante duma atitude racional, que o leva a procurar um prazer relativo que, ilusoriamente, o leva a sentir-se livre por poder conter-se, mas que não lhe permite afastar a tristeza experimentada por saber que as suas emoções não são tão autênticas como as daquele em que estas são espontâneas.

Infere-se então que o paganismo de Reis não é instintivo como o de Caeiro. O de Reis assenta numa ideologia classicista que lhe permite elevar-se acima do cristianismo e assumir perante ele uma atitude de des­prezo.

Reis revela-se detentor de uma dignidade sóbria, de uma perfeita clareza de ideias, e de uma concepção de vida simples. Prefere o silêncio nostálgico para enfrentar a sorte a que os deuses o votaram.

Esta é a atitude que adopta para evitar a dor, para procurar a calma, auto disciplinar-se, nem que para isso tenha de abdicar dos prazeres da vida, tal como preconizava o estoicismo. Reis revela um comportamento reflectido e ponderado, resultante da adopção do epicurismo, que defen­dia que o sofrimento só pode ser evitado quando não há entrega as gran­des paixões ou aos instintos profundos. O prazer, para ser estável e du­radoiro, não pode resultar de sentimentos fortes, deve ser ponderado, isto é, doseado pela razão. Por isso, e para se evitarem as preocupações, deve viver-se o momento presente (Carpe diem) e acreditar no poder da razão, remetendo a emoção para a indiferença, “sem amores, nem ódios, nem paixões que levantam a voz“, deixando fluir o tempo, simbolizado nas águas do rio, ou amando as rosas, que com ele se identificam pela fra­gilidade e transitoriedade a que estão sujeitas (“Nascem nascido já o Sol, e acabam / Antes que Apolo deixe / O seu curso visível”).

Ricardo Reis procura a ataraxia, que patenteia em vários poemas, por exemplo, em “Prefiro rosas, meu amor, à pátria”, onde emite o desejo de que a vida não o canse (“Logo que a vida não me canse…”), ou no curto texto que se segue:

 

Tão cedo passa tudo quanta passa!

Morre tão jovem ante os deuses quanto

Morre! Tudo e tão pouco!

Nada se sabe, tudo se imagina.

Circunda-te de rosas, ama, bebe

E cala. O mais é nada.

 

O poema apresentado reflecte bem a tristeza que parece acompanhar este heterónimo pessoano e que ilustra a seriedade de um homem que se situa, tal como afirma Isabel Monteiro, “entre o não pensamento de Caeiro e a abulia presente num certo Fernando Pessoa (e no Campos da última fase) “.

Ricardo Reis é o poeta clássico, por isso, cultiva a ode e recorre fre­quentemente à mitologia e aos latinismos. Preconiza o regresso à Grécia antiga por considerá-la um modelo de perfeição. Acredita na liberdade concedida pelos deuses (“Só esta liberdade nos concedem / Os deuses…”) e propõe que os imitemos (“Nós, imitando os deuses, (…) / Ergamos a nossa vida / E os deuses saberão agradecer-nos / o sermos tão como eles”).

A poesia de Reis é de cariz moralista. Nela revela-se um estilo sen­tencioso, cheio de conselhos morais e um apelo constante à indiferença, factores que lhe conferem um intenso dramatismo e fatalismo, sendo este traçado pelo destino que atribui ao homem uma vida efémera.

As linhas ideológicas presentes na poesia de Reis reflectem um homem que sofre e vive o drama da transitoriedade da vida, facto que lhe provoca sofrimento por imaginar antecipadamente a morte. Ressalta, também, o amor à vida rústica e à natureza, a procura da perfeição, a in­telectualização das emoções, facetas reveladoras de um homem lúcido e cauteloso, que procura construir uma felicidade relativa, um misto de re­signação e gozo moderado, de forma a não comprometer a sua liberdade interior, liberdade esta que só existe quando há ilusão. Propõe a fruição das coisas sem demasiado esforçoou risco e a aceitação de tudo, uma vez que considera o destino mais importante que a força humana. Aceita a condição de ser humano, transformando-se num moralista que aconselha a evitar as grandes paixões.

Poeta da razão e defensor de um epicurismo temperado de estoi­cismo, acaba por se aproximar do Campos da terceira fase e do ortónimo, pelo tom melancólico que se liberta da sua poesia.

A nível estilístico, a poesia de Reis revela um estilo densamente tra­balhado, de sintaxe alatinada, recorrendo aos hipérbatos, às apóstrofes, às metáforas, às comparações, ao gerúndio e ao imperativo. Apresenta preferência pela ode e pelo verso irregular e decassilábico.

 

 

Síntese

 

Na poesia de Ricardo Reis verifica-se que:

 

  • faz dos Gregos o modelo de sabedoria (visível na aceitação do destino, de forma digna e activa);

 

  • opõe a moral pagã à cristã, uma vez que considera a primeira uma moral de orientação e de disciplina, enquanto a segunda se impõe como a moral da renúncia e do desapego;

 

  • segue as filosofias do epicurismo, do estoicismo e do carpe diem;

 

  • considera que a sabedoria consiste em gozar a vida moderadamente e através do exercício da razão;

 

  • recusa as grandes emoções e as paixões por  considerá-las confinadoras da liberdade;

 

  • é um moralista;

 

  • tem consciência da dor provocada pela natureza transitória/ efémera do homem;

 

  • receia a velhice e a morte;

 

  • dramatiza o pensamento;

 

  • é clássico ao nível do estilo;

 

  •  emprega monólogos;

 

  •  utiliza a ode e o versilibrismo;

 

  •  usa hipérbatos, latinismos, metáforas, comparações;

 

  •  prefere o presente, o gerúndio e o imperativo.

 

  • Abulia – alteração patológica que leva à perda da vontade, que dá lugar ao desinteresse, à apatia.

 

  • Ataraxia – estado de tranquilidade, serenidade, indiferença.

 

  • Carpe diem atitude defendida pelo poeta Horácio e que consiste no usu­fruir do dia-a-dia, no aproveitar o dia, isto é, o momento presente.

 

  • Classicista – que segue o classicismo, isto é, a doutrina literária e artística baseada no respeito pela tradição clássica e que consistiu na adopção do conjunto de características próprias da literatura e das artes da Antiguidade (grega e latina) e que proliferou no século XVI (no Renascimento) e no XVIII (com o Neoclassicismo).

 

  • Dramatismo – no contexto da poesia de Reis, significa o tom patético e si­nistro, comovente, que resulta de comportamentos/atitudes assumi­dos.

 

  • Epicurismo – filosofia moral de Epicuro (341-270 a. C) que defendia o pra­zer como caminho da felicidade. Contudo, a satisfação estável dos desejos, sem desprazer ou dor, impõe um estado de ataraxia, de tran­quilidade, sem qualquer perturbação. O prazer, o bem supremo, há-de ser encontrado na prática da virtude e na cultura do espírito.

 

  • Estoicismo – corrente filosófica que considera a possibilidade de encon­trar a felicidade quando se vive em conformidade com as leis do des­tino que regem o mundo, mostrando-se indiferente aos males e às paixões, porque perturbam a razão.

 

  • Fatalismo – atitude ou doutrina que admite que o curso da vida humana esta previamente fixado. Relaciona-se também com acontecimentos funestos, com o destino, com o fado.

 

  • Latinismos – vocábulos ou construções gramaticais peculiares à língua la­tina.

 

  • Ode – composição poética lírica de assunto elevado; subgénero lírico cul­tivado segundo modelos greco-latinos, desde o renascimento até à época contemporânea. Caracteriza-se pela eloquência, solenidade e elevação do estilo.

 

  • Paganismo – atitude assumida perante o mundo e que consiste em aceitar qualquer religião e a existência de deuses em tudo e em todas as coisas.

 

 

 

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