Alberto Caeiro

Perfil biográfico  

 

Considerado Mestre dos outros heterónimos (Ricardo Reis e Álvaro de Campos) e do próprio ortónimo, é aquele a quem o seu criador vai dar características que se coadunam com a sua formação escolar e o meio em que viveu.

É Pessoa quem o cria e, como tal, atribui-lhe um nome, uma data de nascimento, uma formação literária e insere-o num determinado ambiente. É numa carta a Adolfo Monteiro, sobre a origem dos heterónimos, que o “pai do Mestre” afirma: “…lembrei-me um dia de fazer uma partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucólico, de espécie complicada (…) foi em 8 de Março de 1914 (…) e escrevi trinta e tantos poemas a fio (…). Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderia ser outro assim. Abri com o título”O Guardador de Rebanhos” e o que se seguiu foi o apare­cimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro (…)”. Quase paradoxalmente, afirma mais adiante: “Alberto Caeiro nasceu em 1889 e morreu em 1915; nasceu em Lisboa, mas viveu quase toda a sua vida no campo. (…) Caeiro, louro sem cor, olhos azuis; (…) não teve educação quase nenhuma – só instrução primária; morreram-lhe cedo o pai e a mãe, e deixou-se ficar em casa, vivendo de uns pequenos rendimentos. Vivia com uma tia velha, tia-avó.”.

Perfil literário

 

Os aspectos biográficos poderão contribuir para explicar a simplicidade que Caeiro, para si, reclama. Vendo-se como um simples “guardador de rebanhos“, não admira que prefira a objectividade e a naturalidade próprias dos mais simples. Privilegia os órgãos dos sentidos, principal­mente a visão e a audição, porque são estes que lhe permitem uma percepção exacta das coisas que existem na natureza e com ela e nele evo­luem sem precisarem de uma explicação metafísica ou intelectual.

Para ele, só há a realidade, por isso, o tempo não existe e, conse­quentemente, não faz referência ao passado, nem ao futuro, mesmo por­que todos os instantes reflectem a unidade do próprio tempo.

O facto de se interessar apenas por aquilo que as sensações captam faz dele um sensacionista. Adere espontaneamente às coisas e identifica-se com elas, interrogando-se sobre o porquê de se procurar o mistério das coisas e afirmando não saber mais que o rio ou a árvore (“O mistério das coisas, onde está ele? / (…) Que sabe o rio disso e que sabe a árvore? / E eu, que não sou mais do que eles, que sei disso?”). Por isso, vai recusar o pensamento e rir daqueles que pensam (“Sempre que olho para as coi­sas e penso no que os homens pensam delas, / Rio como um regato que soa a fresco numa pedra.”).

Estas afirmações de Caeiro reforçam o carpe diem, filosofia de vida que adopta o fruir da realidade, de uma forma livre e despreocupada, não vendo nas coisas nenhum sentido oculto, reduzindo-as à percepção que delas têm, à sua forma, à sua cor e à sua concretez.

Diz-se contrário à filosofia e apologista dos sentidos (“Eu não tenho filosofia: tenho sentidos…”), mas a verdade é que cria a sua própria filoso­fia e um pensamento incomum, uma vez que, ao recusar o pensamento, teve de pensar nas razões que o levaram a fazê–lo.

De qualquer modo, após a leitura dos poemas de “O Guardador de Rebanhos“, parece não restarem dúvidas quanto ao seu pendor simplista e reducionista, de forma a poder viver sem dor e a envelhecer sem an­gústia, o que é confirmado pelo conjunto de processos estilísticos que emprega na sua poesia, realçando-se a abundância de substantivos con­cretos, a quase ausência dos adjectivos (utiliza fundamentalmente os de teor cromático ou formal, isto é, sem valoração); recorre, ainda, ao pre­sente do indicativo e à coordenação, excluindo as figuras do pensamento como a metáfora, a sinédoque, a hipérbole, a antítese, o que confirma também a sua tendência para a objectividade e para a redução. Em con­trapartida, a poesia de Caeiro apresenta comparações e alguns paradoxos como forma de objectivar o próprio sujeito. A nível fónico, também não são visíveis recursos como as aliterações, assonâncias, ou onomatopeias, dado que a palavra, em Caeiro, praticamente se anula em favor do seu re­ferente, facto que também pode ser explicado pelo versilibrismo (uso indiscriminado do verso livre) que este adopta, indiciando a lógica subjacente à poesia deste heterónimo pessoa­no e que assenta na crença na singularidade das coisas, mas que marca uma ruptura com os sistemas literários ainda vigentes.

Em conclusão, parece oportuno referir que a criação deste heterónimo terá permitido ao ortónimo libertar-se, quanto mais não fosse momentaneamente da dor de pensar que sempre o atormentou, e com ele aprender a viver a vida de uma forma simples e espontânea, justificando-se, deste modo, a designação de Mestre.

Na poesia de Caeiro verifica-se que:

 

  • Vive de impressões, fundamentalmente visuais;
  • Identifica-se com a natureza e vive de acordo com as suas leis;
  • É instintivo e espontâneo;
  • Prefere a objectividade;
  • Abre-se para o mundo exterior;
  • Recusa a introspecção e a subjectividade;
  • Repudia a expressão sentimental;
  • Vive no presente;
  • Defende a existência em vez do pensamento;
  • Faz poesia involuntariamente;
  • Transforma o abstracto no concreto;
  • Usa uma linguagem simples, familiar e denotativa;
  • Prefere a coordenação;
  • Cultiva o verso livre.

 

 

CARACTRÍSTICAS TEMÁTICAS

 

 

CARACTRÍSTICAS ESTILÍSTICAS

 

  • Objectivismo
    • Apagamento do sujeito
    • Preferência pela exterioridade
    • Integração e comunhão com a Natureza.
    • Sensacionismo: preferência pelas sen­sações visuais e auditivas.
  • Recusa do pensamento, do metafísico, do Mistério, da filosofia e do misticismo.
  • A ruralidade.
  • O paganismo.
  • A desvalorização do tempo:”Não quero incluir o tempo no meu esquema”.
 

  • Verso livre, avesso, portanto, a quaisquer esquemas métricos, rimáticos ou melódicos.
  • Prosaísmo da linguagem.
  • Raras assonâncias, aliterações ou onomatopeias.
  • Pobreza lexical.
  • Paralelismos, assíndetos, polissíndetos, tautologias e comparações.
  • Raras metáforas, metonímias e sinestesias.
  • Predomínio do Presente do Indicativo.
  • Estilo discursivo.
  • Marcas de oralidade.
  • Ritmo lento remetendo para a aceitação das coisas.

 

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