Fernando Pessoa – Ortónimo

Fernando Pessoa – o poetodrama
(…)
A obra de [Fernando Pessoa] é uma literatura inteira, isto é, um conjunto de autores a que ele chamou os seus “heterónimos”, cada um dos quais tem um estilo e uma atitude que os distingue dos mais. Um deles, de nome Ricardo Reis, é um latinista (1) e semi-helenista (2), com uma tranquilidade horaciana (3) na forma e o correspondente epicurismo (4). Outro, Alberto Caeiro, o poeta para quem “o único sentido íntimo das coisas é não terem sentido íntimo nenhum”, o poeta que nega qualquer forma “de religiosidade, qualquer coisa em si”, de certa maneira o Antipascoaes (5). O seu estilo é um verso livre maravilhoso de fascinação no seu pretenso prosaísmo, que lembra o poeta americano Walt Whitman. Um terceiro é Álvaro de Campos, en que pôs “toda a emoção que não dou nem a mim nem à vida”, uma personagem complexa, um engenheiro que se interessa pelas máquinas e pela vertiginosa criação técnica do século, mas também se interroga sobre o mais íntimo do seu “eu”. Um quarto é Fernando Pessoa-ele-mesmo, que usa o verso tradicional, rimado, admiravelmente musical, buscando, não as mãos, mas o gesto da tocadora de harpa, perplexo perante uma coerência impessoal que olha pelos seus olhos e se encontra além do som da cantiga que ouviu. Este é também o autor de Mensagem, um conjunto de poemas de inspiração ocultista e épico-messiânica, o único livro publicado pelo autor nas vésperas da sua morte, em 1934.
Talvez pudesse falar-se ainda de outras personagens ocasionais ou apenas esboçadas. O mais notável no conjunto destes heterónimos é que, embora a problemática lhes seja, pelo menos parcialmente, comum, cada um possui um estilo que lhe é próprio, correspondente na uma atitude que é mais do que uma simples doutrina. Pessoa insistiu várias vezes na realidade dos seus heterónimos e no carácter dramático da sua obra, o que lançou os seus críticos numa perplexidade compreensível. (…)
A temática dos heterónimos só pode classificar-se como metafísica: o que é a realidade daquilo a que chamamos realidade? Há algum significado nas coisas, além dos seu simples ser? Que espécie de coisa se manifesta no que supomos ser a nossa consciência? Mas, sendo, com se diz, “filosóficos” estes e outros temas, a poesia de Pessoa não é uma poesia filosófica no sentido usual desta expressão, ou seja, não é uma meditação sobre temas filosóficos. (…)


[O leitor] tem nele [em Fernando Pessoa] uma matéria ilimitada para se deleitar, quer o seu gosto se incline para a musicalidade do verso, quer para o imprevisto das metáforas ou para qualquer outra das seduções que oferece a literatura. Também encontrará uma grande diversidade de ideias a seu gosto, e até mesmo de sentimentos com que se identificar, visto que o poeta os usou variadamente no jogo dos seus heterónimos. “Sentir, sinta quem lê”, escreveu Pessoa-ele-próprio, e não há razão para o leitor não tomar à letra o convite, apesar do seu tom sarcástico. É o que, de resto, não só os leitores, mas também os críticos, quase todos têm feito.

António José Saraiva, Iniciação na Literatura Portuguesa, Lisboa
Ed. Público/Gradiva, 1996 (texto com supressões

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